domingo, dezembro 31, 2006

2007

A todos os amigos e camaradas, um abraço e um 2007 em pleno!
Manifestem-se pelos vossos ideais!!!

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Em memória de Fernando M. Linhares

Texto – Miguel Linhares / Foto - Gabinete do Ministro da República / Legenda - General Rocha Vieira e Fernando Linhares, nos seus últimos dias.

A morte não deixa de ser algo maravilhoso devido ao seu mistério, mas doloroso para os que ficam neste mundo e perdem alguém que amam incondicionalmente. No dia que se recebe a notícia da morte de alguém que admiramos e amamos, sentimos um vazio corrosivo, abstraímo-nos da realidade, pensamos no passado e sentimos saudades do que poderia ser o futuro. Quem já passou por uma situação semelhante, saberá explicar, à sua maneira, e corrobora o que digo.
Eu tenho um desses dias, daqueles que não consigo esquecer, que me persegue à 15 anos. No dia 13 de Dezembro (sexta-feira, ironicamente) de 1991 morreu Fernando Linhares aos 64 anos, deixando por cá uma esposa e dois filhos, um com 27 e um com 13, eu. O único ganha-pão de uma família, abandonava-a involuntariamente ás mãos de uma doença que – principalmente naquela altura – era muito pouco simpática para as suas vítimas; cancro. 32 anos de casamento que só foram quebrados por este triste capricho da natureza, apesar de ser uma pessoa de bons hábitos e sem vícios!
Nascido a 9 de Março de 1927 na freguesia da Sé, em Angra do Heroísmo, este foi um homem que devido à dificuldade financeira da família começou a trabalhar cedo e, claro, os estudos não eram de todo uma prioridade naquele tempo. Completou a antiga 4ª classe mais tarde, aprendendo, assim, a ler e escrever. Entre os vários empregos que teve, nenhum lhe ofereceu a satisfação que pretendia, pelo que mais tarde tornou-se empregado sindical, obtendo daí, mais algum gozo no que fazia. Muito antes disso já cultivava-se incessantemente, devorando tudo o que eram livros, criando uma consciência política e social acutilante e alimentando uma cultura geral que se tornou o seu grande marco. Apesar de não ser militante de nenhum partido político, era, assumidamente, um homem de esquerda! Admirava homens como Álvaro Cunhal, Ernesto “Che” Guevara, Jean Paul Satre, Lenine ou Karl Marx. A música clássica era a sua paixão, Vivaldi o eleito! Coleccionou toda a sua vida objectos antigos e tinha uma biblioteca considerável, mas acima de tudo, muito selectiva. Não era contra as religiões, mas sim contra as igrejas. Respeitava as ideologias, mas desprezava as instituições. Considerava-se agnóstico, sabia a bíblia quase de cor e conhecia mais algumas religiões, mas dizia que “para se acreditar em Deus, não é preciso ter uma religião”. Complementava: “Cada um acredita em Deus à sua maneira.”. Nunca virava costas a uma discussão ou troca de ideias! Ganhava quase sempre, por ter mais argumentos e sabedoria. Só lhe faltavam os diplomas que a falta de dinheiro e tempo nunca permitiram. O conhecimento estava lá, era a sua arma! Circunstâncias da vida…
Exímio crítico e cronista escreveu para vários títulos como o “Diário Insular”, “A União” e o já extinto “Directo”. Era muito acutilante e frontal a escrever. Tinha um sonho, ser jornalista, mas, mais uma vez, a vida não o permitiu. Por muitas vezes com um papel activo na política e na defesa dos mais desfavorecidos, deixou muitos mais amigos neste mundo do que os inimigos que tiveram a triste ideia de o serem. As suas fortes palavras e o seu rosto quase sempre sério infligiam respeito e sobriedade. Como alguns ex-colegas dizem, era um revolucionário, um activista, um curioso, autodidacta, imensamente culto e persistente. Amante da natureza e fascinado pelo espaço e pela ciência. As suas palavras – que não teve oportunidade de deixar escritas em livro – foram o maior legado que deixou, numa ilha em que só certos “senhores” e “cunhas” primavam por aparecer. Foi contra estes “senhores” e “cunhas” que lutou toda a sua vida, com mais ênfase durante a segunda metade do Estado Novo, mas tomando maiores proporções a partir da madrugada de 25 de Abril de 1974, em que teve um papel activo. Alguns Senhores – aqui sem aspas – tornaram-se grandes amigos dele, parceiros de conversas e teorias e admiradores da sua forte personalidade. Sentimento que retribuía!
Marido extremoso, pai rígido, perfeccionista, mas dedicado, amigo de eleição e cidadão cumpridor. Era contra o capitalismo em todas as suas formas. Embora tivesse ideologias utópicas, a sua boa vontade levava-lhe a crer que um mundo melhor era possível, sem a exploração do homem pelo homem. Tinha vários hobbies e interesses que levou, sempre dentro do possível, avante na sua vida. Deixou viagens por fazer e cidades por conhecer. Rematou fielmente as suas convicções que defendeu até ao fim. Não tentava convencer, mas chegar à verdade. Deixou o mundo com muito ainda para dar.
Passados estes anos todos é esta a homenagem pública que deixo. Não foram rezadas missas no dia, não foram feitas missas de 7º dia nem nada que se pareça. Um dos últimos pedidos foi esse, nada de padres nem similares. Cumpriu-se! Entre toda a dor que senti de ter perdido um pai, um amigo, um professor, um ídolo, deixo aqui a minha manifestação de reconhecimento a um dos homens mais nobres que conheci até hoje.
Que o Hades tenha sido a sua próxima morada…

in jornal "A União", 13 de Dezembro, 2006

terça-feira, novembro 28, 2006

Tenho medo...

Tenho medo de não concretizar todos os meus sonhos, mesmo sabendo que mais de metade desses são realizáveis. Empenho-me em muitas coisas, realizo algumas, mas parece que fica sempre algo por fazer e, irremediavelmente, sinto-me inconformado!
Continuo, no entanto, a projectar coisas que pretendo continuar ou começar a fazer, por me satifaszerem e de modo a melhorar as areas que me interessam. Espero conseguir, pois este ano de 2007 parece-me que vai ser decisivo...

quarta-feira, novembro 22, 2006

Fica o sorriso...

Inexplicável, assim é a vida que acaba sempre na morte. Por experiência própria, sei o que custam as duas, já senti a segunda muito de perto, muito na minha pele, a levar-me sangue do meu sangue. Tenho uma visão muito fria sobre tudo isto, mas sei que vou ter que continuar a enfrentá-la durante a minha vida...
Desta vez levou alguém que não me era muito chegado, mas que era parceria ocasional de algumas conversas nostálgicas e estórias que vinham sempre a lume. A última vez que tive na Terceira, em Setembro, foi a última vez que a vi e que troquei mais umas palavras com ela. Fica a saudade destes encontros ocasionais. Fica o sorriso dela que era o que mais marcava...

terça-feira, outubro 31, 2006

Foi para ti...

Tão misterioso como este dia de Halloween, assim é este pequeno gesto que escrevi...


Conciliábulo

Alicio-me com o bom senso de dizer não,
Sacudo o desejo que todo o dia me esbofeteia!
Talvez deva simplesmente ignorar...
Infando tão grandiosa confusão
Dando razão á razão e não amando só por amar.

Pusilânime alma esta que não fala,
Nem a limpidez do Hades a purificará,
Tormento tão belo nunca senti decerto!
O belo deve-se ao belo e a dor deve-se a Ela.
Dor que vai passando, mas que a quero mais perto...

Sentimento aliforme que tento segurar,
Tão grande é o impacto da sua existência,
Tão teimosa é a sua durabilidade!
Só o amanhecer toldado vai guardar
Toda a irreverência desta ilícita vontade...


Miguel Linhares, Angra do Heroísmo, 2002

terça-feira, outubro 17, 2006

Uns fecham, outros nascem para o mundo!

Enquanto algumas publicações sofrem com a crise, que também se faz sentir na comunicação social, outros projectos ganham pernas para entrar neste mercado. O Jornal dos Açores - com o qual eu colaborava regularmente - fechou portas a 24 de Setembro, ficando a história por contar por parte dos responsáveis, uma redacção com qualidade no desemprego e ordenados por pagar. Aqui também perdi algumas centenas de Euros que provavelmente nunca verei!
Nesse entretanto e dando razão aos comentários que afirmam que o futuro da imprensa está nos gratuitos e nos on-line, surgem dois novos projectos a ter em conta. Um deles, que prima por um grafismo muito interessante e sedutor, é o Brumazores (www.brumazores.com) um jornal gratuito em papel, que terá uma edição on-line mais trabalhada brevemente, assim prometem no editorial.
O outro é o Actual (www.cyberactual.com) que é um jornal on-line que pretende revolucionar a forma de comunicar e informar na região. Neste caso, por enquanto, o design da página não é muito atrativo e funcional, além disso - e talvez seja do meu PC - a página leva sempre muito tempo a carregar. Ainda assim, um projecto a ter em conta.
Embora já tenha mais uns meses de existência, um outro jornal on-line nasceu em Angra do Heroísmo durante o verão, o Jornal Online (www.jornal-online.info), este com informação muito actualizada.
É assim, morrem uns, nascem outros...

quarta-feira, outubro 04, 2006

Parabéns...


...e obrigado por seres tudo o que desejava
e mais aquilo que não consigo ser.


Por seres
a melhor parte de mim
e por fazeres com que te ame
tanto.

Parabéns
e sê muito feliz.

sábado, setembro 09, 2006

Magia...?!

Há coisas do Ca******! Experimentem este site e digam de sua justiça. Se alguém tiver explicação para isto, que me elucide... http://kardini.fateback.com/telepatiav.htm

terça-feira, setembro 05, 2006

Graffiti sobre tela em “Ex Posição”

O Núcleo Museológico de São Bartolomeu acolhe a “Ex Posição” de pintura de Jaime Oliveira, artista natural daquela freguesia. O gosto pelo desenho começou desde cedo. Aos catorze anos começou a pintar telas em carvão. Abandonou os quadros durante algum tempo mas, nunca perdeu a vontade de mostrar ao público os seus trabalhos. Surge agora a oportunidade numa exposição, patente ao público até dia 9 de Setembro.

Fonte - www.auniao.com / Texto - Dulce Teixeira

O gosto pelo desenho e pela pintura surgiu muito cedo. Aos catorze anos, Jaime Oliveira começou a pintar os seus quadros em carvão, “só para amigos e familiares”. Ao longo do tempo foi aperfeiçoando o traço e experimentando novas técnicas. Este ano, decidiu concretizar um sonho antigo e começou a organizar uma exposição. Surge então a oportunidade de expor os seus trabalhos durante as festas de São Bartolomeu. Durante cerca de mês e meio conseguiu por de pé a “Ex Posição”, “comecei a pintar estas telas em Fevereiro e, quando a proposta da exposição foi aceite comecei logo a prepará-la”.Os 27 quadros que compõem esta mostra não têm um estilo bem definido, “é um estilo muito próprio, não utilizo uma técnica em específico”, refere Jaime Oliveira. Pinta aquilo que gosta, da maneira como gosta e fá-lo através do graffiti sobre tela, “tenho apenas dois quadros com massa, alguns com uns toques de pincel mas, poucos”. Nada é desenhado antes. É tudo pintado directamente no quadro. A obra vai nascendo, conforme inspiração ou estado de espírito. Jaime pinta sobre os mais variados temas, em telas panorâmicas em que o jogo de cores prende o olhar de qualquer curioso. Nus, paisagens abstractas, formas geométricas e, até, ícones religiosos, são alguns dos temas que escolheu.Quanto a preferências, “não tenho um estilo preferido nem um pintor preferido” mas, “há um arquitecto que me fascina, Gaudi, pelas formas redondas que apresenta nos seus trabalhos, gosto muito dessas formas redondas e utilizo-as bastante nos meus”.A “Ex Posição” é uma mostra, uma espécie de teste que Jaime Oliveira preparou, “é uma exposição informal, com o objectivo de perceber o que as pessoas gostam mais, para perceber a sua reacção ao meu trabalho”. No entanto, 20% dos quadros já estão vendidos e, em apenas dois dias de exposição, já visitaram o espaço cerca de 400 pessoas. Quanto ao futuro, “vamos a ver o q vai dar porque esta exposição está a superar as expectativas; os objectivos já foram ultrapassados até 2008, altura em que pretendia organizar a exposição”, adianta. O tempo era pouco mas, “consegui fazê-lo agora, com muita ajuda (nomeadamente da minha namorada)”.Por enquanto, Jaime vai continuar a fazer trabalhos por encomenda, aos que chama de “trabalhos condicionados”, algo de que gosta bastante, “o que me dá mais gosto é o facto de eu concretizar o desejo da pessoa, gosto de superar as suas expectativas; gosto do trabalho condicionado, de aceitar o desafio, gosto que as pessoas me condicionem desde o tamanho da tela ao desenho”, acrescenta. Outra exposição não está fora dos objectivos de Jaime. Preferiu expor os seus trabalhos na freguesia natal, para um público menor mas, “gostava de fazer uma exposição num espaço completamente diferente, onde pudesse expor os meus quadros e colocar em prática algumas ideias mais arrojadas e, então, seria a minha exposição,”. A pintura é apenas um hobby para Jaime que também quer produzir trabalhos em madeira com a sua assinatura, “actualmente estou a gerir uma oficina de carpintaria e gostava também de arriscar nessa área, de produzir peças de decoração, por exemplo”.

Pintura e música são favoritas
Com 24 anos, Jaime Oliveira é natural de São Bartolomeu. Tirou o curso de Técnico de Construção Civil na Escola Profissional da Praia da Vitória, concluído em 2002. Actualmente, gere uma oficina de carpintaria, juntamente com o pai.Amante da música, Jaime é baterista num grupo de rock, os “Velvetstone”.Sem qualquer formação nas artes, Jaime Oliveira pinta os seus quadros desde os catorze anos. A sua “Ex Posição” está patente ao público no Núcleo Museológico de São Bartolomeu, até ao próximo dia 9 de Setembro.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Arrogância?

Por vezes sou um bocado arrogante. Não sou a pessoa mais simpática que podem conhecer, pelo menos até eu vos conhecer bem. Sou fechado, admito uma pontinha de egocentrismo reles e não confio nas pessoas. Depois de, na minha curta vida, ter levado uma meia-dúzia de "cabeçadas", aprendi a não confiar em nada e em ninguém, mesmo que essa pessoa aparente ser a mais simpática do universo. Precaução. Algum medo, também.
Ainda assim, quando gosto de uma pessoa, sou o que se pode chamar de um amigo prestável - que raramente dá cortes - mas sou muito frontal, verdadeiro e nunca ando com rodeios na conversa. Tudo o que sou capaz de dizer por trás de uma pessoa, pela frente, serei capaz de dizer com mais adjectivos! Não gosto de mesquinhez e odeio pessoas falsas, com ilusões de superioridade ou comodistas. Se calhar por isso tenho poucos amigos, embora conheça muita gente. E os amigos dividem-se em duas partes: os que já o são de infância ou há longa data, com os quais falo quase todos os dias ou mantenho uma relação aberta de amizade e apoio em todas as circunstâncias - e aqui só devem figurar uma ou duas pessoas - e os outros com os quais não falo ou vejo tão regularmente, mas que nutro um respeito e consideração acentuados - aqui já são uns quantos. Para todos estes, o meu obrigado é eterno, principalmente por aguentarem o meu mau humor, que acompanhado, ás vezes, de laivos de raiva, não são mais que momentos passageiros em que sofro de "bipolaridade". Para os outros conhecidos, sejam camaradas de conversas ou de copos, também apresento os meus agradecimentos pelos momentos passados. A todos os outros sacanas - não são muitos, mas dá para "encher" os dedos de uma, ou duas mãos - que falam mal por trás, desejam o pior para a minha vida, tentam-me enganar ou criam mentiras a meu respeito, na rua ou no trabalho, a esses sacanas só quero informar que virá o dia em que vão pagar pelos vossos actos. E, como sou agnóstico, não acredito em coisas sobrenaturais, logo, não acho que o que não se paga neste mundo paga-se no outro. Acho que tudo se paga neste mundo, no mundo orgânico e pálpavel e o dia do pagamento poderá levar anos a chegar, mas chegará... E que fique aqui bem registado a minha arrogância neste aspecto.
Cordiais saudações.

terça-feira, agosto 29, 2006

Texto para os Fala Quem Sabe!

Entreguei um texto de minha autoria aos Fala Quem Sabe. Escrever não é difícil, mas ter piada é bem mais complicado. Gostaram e o programa saiu em finais do mês de Julho, julgo. Lê-lo não é a mesma coisa que ver o programa com eles três. Um texto, por melhor que seja, necessita sempre do cunho dos actores. E isso, eles sabem fazer muito bem!
Aqui fica o meu texto que deu origem a um dos programas de Fala Quem Sabe, obviamente com muitos erros ortográficos para dar aquele ênfase...

O mundo é redondo?!
Texto – Miguel Linhares

Ramiro vai passeando pelo quintal, a contemplar a beleza da primavera, as árvores, os passarinhos, com um ar sorridente. De repente vai ficando cada vez mais intrigado, coçando a cabeça, acabando por ficar muito pensativo, enquanto continua a passear. Nesse entretanto aparecem o Batista e o Agostinho.

Agostinho (sorridente) – Hóme, o Sr. dá licença á gente?!!!
Ramiro – Vocês hoje estão muito simpáticos, porque será…?
Batista – Então Ramiro, e que tal? Não há nada para fazer? Aperta contigo, tens aí muita terra para cavar!
Ramiro – Home eu já tive ali a abrir uns regos, mas fiquei muito cansado, estou aqui a descansar um bocadinho, a apreciar a natureza.
Agostinho – Ei Ramiro, a natureza no teu quintal é sempre a mesma, não há nada de novo, eu está-me a parecer é que andas a ficar meio malandro…
Batista – É. Quem abre meia dúzia de regos e fica cansado ou é porque nunca pegou numa enxada ou então é mesmo malandro… e cheira-me que o teu mal é esse mesmo…malandrice.
Ramiro – Home vocês não me chateiem, eu depois quando tiver as novidades na terra, vocês não venham cá de cestinha porque não vão levar nada!!!
Batista – Pois, eu mesmo não estou a pensar em mais nada, estou só á espera que a tua terra dê alguma coisa…morria de fome… (risos)
Agostinho (risos, virado para o Batista) – Havia de ser lindo… além dele não fazer muito, ainda por cima esta terra aqui não dá nada… é muito barrenta.
Batista – É barrenta lá nada, tu és é tolo. Esta terra aqui no meu quintal é a melhor que encontras aqui na freguesia!!!
Agostinho – Pois é…para fazer alguidares… (Batista e Agostinho riem)
Ramiro – Engraçadinhos…

Pequena pausa…Ramiro fica outra vez meio intrigado e pensativo…

Batista – Ei Ramiro, estás a pensar na morte da bezerra?! Já quando a gente chegou estavas assim meio pensativo… que é que se passa, a “mulhé” anda a tirar-te o juízo?
Ramiro – Home, não é nada disso, eu estava aqui a pensar… o que será que existe debaixo da terra?!
Agostinho – Debaixo da terra…home existe terra e pedras…
Ramiro – Tá certo, mas e mais, será que existe túneis e grutas? (pausa, os outros ficam espantados a olhar para ele) Será que vivem pessoas em outros lugares debaixo da terra?
Batista – Já cá faltava a asneira, estava a ver que não Ramiro. Ó Ramiro não vive ninguém debaixo da terra!!!
Agostinho – Debaixo da terra, que eu saiba, é só mortos.
Ramiro – Home, nunca ouviste dizer: ”não caves tanto fundo que ainda vais parar á China!”, vocês nunca ouviram isso?
Batista – Epá isso é uma maneira de falar, uma expressão que se diz na brincadeira. É impossível tu ires parar á China, por mais que caves! O planeta é redondo, mas é muito grande, para ires para a China tem que ser por cima da terra…e não deve ser nada barato…
Agostinho – Quer dizer, se é redondo eu não sei, desconfio um bocadinho disso…
Batista – Ai sim, então porquê? Nunca viste os cientistas a falar na talavisão? Eles dizem que é redondo.
Ramiro – Uei home, redondo?!!! Se fosse redondo, como é que a gente se aguentava em pé? As pessoas caíam!
Batista – Epá, dá-me impressão que eu estou no meio de dois burros. A terra é redonda e a gente não cai porque, prontes (atrapalhado) …a terra tem uma força…uma força que aguenta a gente presos ao chão…tipo…tipo um íman…
Agostinho – É a força da gravidade!
Batista – Isso mesmo…epá, ó Agostinho, tas a ficar espertinho!!! Deixaste a bubida?
Agostinho (a gozar) – Foi… só não sei aonde…
Ramiro – Força da gravidade?!!! Gravidade de quê? A gravidade da pancada no chão quando a gente cai?
Batista – Ó “serve de Dês”, não. A força da gravidade é o nome que se dá á tal força que te falei que aguenta a gente presos ao chão.

Pequena pausa…

Agostinho – Mas mesmo assim, não sei se será mesmo redonda… vocês nunca andaram de avião? O avião vai é sempre para cima e para a frente, não anda á volta de nada… (gesticular)
Ramiro – É verdade! Eu uma vez fui visitar uma tia minha e a gente foi lá onde ela mora, na América de cima, e aquilo o avião estava era sempre a subir e andar para a frente…a gente primeiro parou num aeroporto que fica na América de baixo, a modes que lá também mora muitos açorianos…
Agostinho – Maxaxuxa…
Ramiro – Isse!
Batista – É, a minha irmã mora lá, costuma mandar umas dólas…
Ramiro – Prontos, e depois é que o avião foi pá América de cima, ou seja, primeiro pára em baixo e depois sobe ainda mais para ir para a América de cima, por isso a terra não é bem redonda, é mais é a subir…tipo montanha.
Batista – Home vocês não digam mais asneiras, pelas vossas saudinhas! Essa coisa da América de cima e América de baixo é um termo que os emigrantes arranjaram, mas na realidade não é assim. O que chamam de América de baixo é onde fica…como é Agostinho?
Agostinho – Maxaxuxa!!!
Batista – Isse! Que é uma zona que fica na parte norte do país e o que chamam de América de cima, é onde fica…como é que se chama o lugar onde foste?
Ramiro – Uhhhhh…era… chamava-se Califôna!
Batista – Isso mesmo! Califôna, que é uma zona que fica na parte sul do país. Portantos vocês estão a dizer asneira da grossa.

Pequena pausa, Ramiro coça a cabeça confuso, Agostinho olha meio desconfiado e Batista olha para eles convencido que está certo.


Ramiro – Home, eu não sei…mas existe uma coisa que ainda me faz mais confusão…
Batista – Só uma…que é?
Ramiro (com medo de dizer mais uma asneira…) – Home… a gente quando anda de carro á noite, porque é que a lua vem sempre atrás da gente?!!!
Batista – Uei Ramiro! BOA NOITE!!!

Batista vai-se embora chateado, Ramiro fica a resmungar, Agostinho fica meio pensativo…e resmunga “Tá bem pensado Ramiro…”

quinta-feira, julho 27, 2006

“Belos” areais mas com aproveitamento “nulo”

Texto - Miguel Linhares

O concelho da Ribeira Grande tem extensos areais, mas o seu aproveitamento é quase nulo. A única zona balnear galardoada com bandeira azul são as piscinas das Calhetas.

Desde a inauguração, no ano passado, das piscinas municipais das Poças, estas passaram a ser o principal ponto de paragem na Ribeira Grande para as práticas veraneias. O concelho está presenteado com extensos areais, mas o seu aproveitamento é quase nulo. A única zona balnear na Ribeira Grande galardoada com bandeira azul é o lugar das piscinas naturais das Calhetas, embora esta seja frequentada, maioritariamente, pelos locais, pessoas das freguesias limítrofes e alguns turistas que por lá vão passando. Com muita pouca - ou quase nenhuma - areia, esta zona balnear prima pela limpeza tanto em terra, como na água, embora esteticamente o espaço pudesse estar mais cuidado. As infra-estruturas de apoio aos banhistas já não são novas, mas estão em boas condições e nota-se um cuidado pelo espaço. Mais obras estão a ser programadas de modo a beneficiar os seus frequentadores, como afirmou ao JA José Duarte, o presidente da junta de freguesia de Calhetas: "Já melhorámos muito isto e ainda vamos cimentar a zona toda de cima, deixando só, junto à água, a areia grossa.". Na altura da nossa visita notava-se alguma sujidade na água, pelo que o nadador-salvador, Luís Mendonça, prontificou-se a esclarecer: "Isto não é muito normal, a água costuma estar limpa, mas tem dias que aparece este tipo de sujidade aqui…". José Duarte complementa: "O que se passa é que esta sujidade não é nossa, não vem aqui da freguesia. Quando o vento está ali do lado dos Fenais da Luz, esta sujidade vem cá parar, já tentámos resolver isto mas não está fácil.". E continua: "Há lá uma zona em que deitam lixo sem qualquer tipo de controle, até foi lá construído um muro a limitar o acesso à zona, mas já o deitaram a baixo e continuam a colocar lixo na zona e quando o vento vem dali, isto fica assim…". Outra situação caricata que foi registada no local foi a presença de um grupo de pessoas que estavam a fazer um churrasco, com uma pequena fogueira, num piquenique. Numa zona de bandeira azul isto é, no mínimo, estranho, mas o presidente da junta tem novamente uma explicação: "Aqueles senhores têm por hábito fazer aquilo, já os avisámos mas eles continuam a fazer. Já foram alertados, se aparecer a Polícia Marítima vai ser pior, mas eu já esta semana vou resolver isto. Vou enviar um ofício à câmara municipal a explicar a situação para eles tomarem medidas.". Ainda há pouco tempo havia na zona balnear umas churrasqueiras, o que explica que as pessoas ainda possam ter por hábito fazer fogueiras na zona, mas como José Duarte revela "a Delegação de Saúde mandou-nos tirar as churrasqueiras da zona". Aparentemente, quem vinha a sair da zona dos duches era "imediatamente perturbada com o fumo", o que por si só, já não era higiénico e aconselhável numa zona balnear. Também, à primeira vista, era passível de se pensar que o local era alvo de campismo selvagem, por estar uma tenda montada, mas isso foi desmistificado, em uníssono, pelo presidente da junta e por Luís Mendonça, o nadador-salvador: "Já falamos com a senhora, a tenda está só a servir de "abrigo" à sua criança, daqui a pouco já está desmontada…". Luís Mendonça afirma que tem sido uma época balnear muito calma, sem problemas de maior, embora, por vezes, aconteçam pequenos incidentes de desobediência. "Existe aqui um ou dois grupos de rapazes que não se lhes pode dizer nada, são muito rebeldes", explica. Enquanto o nadador-salvador nos passa essa informação, um desses grupos já vai longe da costa numa bóia preta em passeio despreocupado, mas que pode tornar-se perigoso. "Não posso fazer mais nada, se a Polícia Marítima aparecer por cá, isto resolve-se! Eles são sempre bem avisados dos perigos.". Nota-se que existe um esforço em melhorar todo o espaço, por parte do presidente da junta o que é complementado pelo empenho do nadador-salvador, mas ainda haverá muito para fazer pelo melhoramento do espaço. Ainda assim, a bandeira azul lá está, a única na Ribeira Grande e José Duarte, orgulhosamente, ainda deixa uma nota final: "Já cá vieram fazer as análises à água por três vezes e de todas a qualidade era excelente!". Já na freguesia da Ribeira Seca e bem próximo da cidade da Ribeira Grande, podemos encontrar o extenso areal de Stª Bárbara. O espaçoso - e mais ou menos ordenado - parque de estacionamento, não se coaduna com o acesso ao areal que deixa bem à mostra uma vasta poluição e desleixo estético. Um pouco de tudo pode ser encontrado em alguns calhaus junto ao caminho e ao chegar ao areal a imagem não é muito mais colorida! Só por isto, já se pode explicar porque a bandeira azul não figura nesta praia, embora seja muito bem frequentada e tenha nadador-salvador. Paula Rita é uma banhista habitual desta praia e diz que "é normal toda esta sujidade, tanto na areia como na água." O que também ressalta à vista, ao chegar-se ao areal, é a pequena falésia do lado oposto do mar que, para além de não ter ar de muito seguro, possui no topo um muro de pedra em muitos dos seus pontos desmoronado. Paula Rita esclarece: "Realmente isto não é muito seguro, mas também não ouço muitas críticas em relação a isso", opinião consonante com a de outra banhista habitual: "Realmente não se sente muita segurança aqui, deviam arranjar isto para as pessoas ficarem mais descansadas, isto é mesmo junto ao areal.". E vai mais longe e deixa um desejo: "Isto aqui está sempre muito sujo, na água, embora a areia nem tanto. O que eu acho é que deviam explorar a praia do Monte Verde, em vez desta!". O que é certo é que a longa extensão desta praia, dá uma ideia de subaproveitamento da mesma, pois qualidades parecem não faltar, higiene e alguma segurança sim! Talvez a sensibilização perante a população fosse um primeiro ponto a ter em conta. Sobre isso mesmo falam-nos outros banhistas habituais do areal de Stª Barbara: "Costuma estar um pouco poluído, mas o que mais vejo são pessoas a deixarem lixo na areia". Também nestes casos a pequena falésia não deixa margem para dúvidas: " Não nos dá segurança nenhuma e nunca coloco a toalha muito junto. Nunca vi cair pedras, mas pode acontecer e além disso cai muita terra". Para além de opiniões pessoais, estes banhistas já ouviram as mesmas críticas por parte de outros frequentadores desta praia. Uma outra banhista acrescenta outro ponto, que considera mesmo "estúpido", que é o facto de "só haver um nadador-salvador numa praia tão grande, ainda por cima na zona da praia onde vai menos gente, pois é no lado oposto ao da entrada que existe mais espaço e para onde vai quase toda a gente.". Deveria, então, o nadador-salvador estar colocado mais ao centro da praia para ter uma abrangência maior? Esta banhista acha que não: "Em último caso, sim, deveria ser assim, mas para haver segurança era preciso colocarem mais um ou dois nadadores-salvadores, pois esta praia é muito extensa!".De notar, ainda, a inexistência de infra-estruturas de apoio aos banhistas, havendo somente, à entrada da praia, uns pequenos duches a céu aberto. Para além destes, um quiosque de venda de gelados, que no momento da nossa visita estava fechado. Pelo grande número de pessoas que acorrem a este areal talvez fosse conveniente pensar um novo modelo para a próxima época balnear, que ofereça segurança e qualidade aos banhistas. Agradeceriam, com certeza!Mesmo ao lado do areal de Stª Barbara e com vista para as piscinas municipais das Poças, está a praia do Monte Verde. Pouco há a dizer sobre este areal que não possui bandeira azul, nem tão-pouco vigilância. Apesar da sua localização privilegiada e de uma razoável extensão, o abandono é completo e a limpeza não figura neste espaço. A ribeira desagua nesta praia, embora este não seja um inconveniente. Mais preocupantes serão as casas que têm como quintal…a areia. O quadro é pintado de algum lixo e despojos, não beneficiando em nada a areia e o mar.Toda a envolvente é descuidada, embora mesmo ali ao lado e a poucos metros estejam as muito frequentadas piscinas municipais, miradouros e espaços de lazer aprazíveis, espaços comerciais …mas com um borrão na pintura, a praia de Monte Verde...

in "Jornal dos Açores", 26 de Julho de 2006

sexta-feira, julho 21, 2006

Era uma vez as duas zonas balneares mais próximas de Ponta Delgada

Texto - Miguel Linhares / Foto - Jornal dos Açores

Praias do Pópulo e Milícias. Há uma visível preocupação da Câmara em manter as praias limpas. Qualquer cenário de lixo é imediatamente eliminado. Os banhistas mostram-se satisfeitos.

Da “excelência” da praia pequena do Pópulo aos problemas com esgotos da praia das Milícias vai um percurso de grande esforço para manter as duas zonas balneares limpas e bem frequentadas, isto num ano em que os banhistas pagam multa por nadar com bandeira vermelha e o sol veio para queimar mais do que o habitual. A verdade é que, chegada que está, em força, a época balnear em todo o território nacional, resta aos banhistas escolherem o lugar de eleição para as actividades veraneias possibilitadas no mar, uns por puro prazer, outros por hábito levado a cabo todo o ano, outros para a prática de diversos desportos ou entretenimentos e outros ainda por simples impulso imposto pelo sol e pelo calor desta altura do ano. Para além dos mais que publicitados cuidados a ter com o sol e os possíveis malefícios que este pode causar por longas horas de exposição e em certas alturas do dia, há que ter em conta outros factores que podem ser determinantes para o bem estar daqueles que pretendem passar um dia agradável no mar.

Atracção
Uma equipa de reportagem do JA vai estar por todas as zonas balneares de São Miguel.Não só é importante saber a qualidade da água da praia que se vai frequentar, mas também que tipo de infra-estruturas que possui, se tem vigilância ou não e se a envolvente é limpa e atractiva. No concelho de Ponta Delgada existem duas praias que acabam por ser também as zonas balneares mais próximas do centro da cidade mais populosa do arquipélago, Milícias e Pópulo, as duas galardoadas com bandeira azul.A bandeira azul não é mais que um símbolo de qualidade atribuído às zonas balneares que reúnem um conjunto de regras de qualidade com nota positiva. Atribuída desde 1987, o progresso das praias e portos de recreio portugueses tem vindo a ser notório, se bem que, por vezes, discutível. Os critérios são tidos em conta pelo Júri Nacional da Bandeira Azul para as praias, que é constituído por um conjunto de 21 entidades da Administração Pública, Central e Regional, bem como organizações não governamentais, sendo coordenado pela Associação Bandeira Azul da Europa. As candidaturas das praias são apresentadas anualmente pelos municípios às direcções regionais do Ambiente, subscritas por mais do que uma entidade de âmbito local e regional. Depois de uma primeira fase de avaliação a que são submetidas, as candidaturas são remetidas ao Operador Nacional e o Júri Nacional da Bandeira Azul para as praias, como Júri Nacional, aprecia e aprova a lista de praias a submeter ao Júri Internacional, constituído por elementos da FEE ( Foundation for Environmental Education) e de um representante da Comissão Europeia, que decide quais as praias e marinas que deverão ser galardoadas. As regras a ter em conta dividem-se em quatro pontos nucleares (que estão subdivididos em 23 critérios a cumprir); qualidade da água, informação e educação ambiental, gestão ambiental e equipamentos e segurança e serviços.

Pópulo "excelente"
A praia do Pópulo, no Livramento, é relativamente pequena e, por isso, é a menos utilizada pelos banhistas na cidade de Ponta Delgada. Dotada de excelentes infra-estruturas, esta praia está preparada para todo o ano balnear receber os veraneantes nas melhores condições. Está presenteada com bons acessos, apesar de um parque de estacionamento relativamente pequeno, como nos confirma um habitual frequentador: " Gosto muito de cá vir, porque tem sempre menos pessoas e menos barulho que a das Milícias. Parece-me, também, que a água aqui é um pouco mais limpa, mas poderá ser só uma impressão minha. A única pena que tenho é o parque de estacionamento não ser maior, pois isto fica num instante cheio. Se chegar cá pelas 14h00, já é difícil arranjar espaço para estacionar e, por vezes, tenho que o fazer lá em cima na estrada, ou no parque do outro lado.". Ainda assim, este não é um factor por si só forte para que as pessoas deixem de frequentar a praia que preenche todos os requisitos necessários para o hastear da bandeira azul, que, orgulhosamente, lá está. Outro frequentador habitual da praia do Pópulo deixou a sua impressão, relativamente à limpeza e segurança na praia: " Não tenho nada a apontar, não me lembro de ver a água suja, a não ser às vezes no Inverno. Com as tempestades, acabam sempre por dar algumas porcarias à costa, mas, de resto, está sempre impecável. Para além disso, vejo sempre aqui os nadadores salvadores atentos ao que se passa e isso dá-nos segurança…".

Milícias: "tudo limpinho"?
Poucos metros antes da praia do Pópulo, e ainda em S. Roque, está a praia das Milícias, esta massivamente frequentada, até por ter uma dimensão considerável. Toda a envolvente da praia é muito agradável, cuidada e de excelentes acessos, complementado por excelentes infra-estruturas de apoio. Para quem entra pelo lado poente da praia poder-se-á deparar com maiores dificuldades de estacionamento, mas que nunca chegam a ser preocupantes, como nos revela um morador da zona: "Por vezes nem é o facto de não haver espaço, mas sim o entrar e sair de carros dificultado pelo reduzido espaço de manobra dentro do parque. Se desenhassem melhor este parque e tirassem este muro que o divide em dois, ficava mais bonito e mais prático…". Quem olha para o areal e para a água, fica com a certeza que a bandeira azul está bem atribuída, mas quem está aqui todos os dias, por vezes, tem uma ideia diferente: "Agora, durante o Verão, não me lembro de ver isto sujo, mas, no Inverno passado o mar destruiu um paredão e, consequentemente, arrebentou com um tubo de esgoto, pelo que isto ficou um pouco sujo". "Mas, durante o mês de Junho, o esgoto foi arranjado e não tenho reparado em mais nada e também não ouço muitas críticas dos clientes", revela-nos um empregado de uma das superfícies comerciais da zona. Outras duas pessoas que trabalham na zona da praia, dizem que isso deverá ter sido um caso pontual, pois "não nos lembramos de ver isto aqui sujo. Está sempre tudo limpinho!".Mas aqui as opiniões tendem a divergir, pois, se uns defendem a praia como sendo uma das mais limpas, outros lembram-se de momentos em que a água não convidava a entrar: " Já cheguei a vir cá e a água estar meia suja e com muita espuma… pior ainda, de uma das vezes que cá vim, estava a entrar no areal e reparei, a tempo, numa garrafa de cerveja partida, meia soterrada na areia. Isto não é muito agradável para quem vem cá com a família". Para aqueles que frequentam a praia durante todo o ano, a opinião também diverge. Os praticantes de desportos náuticos, como o surf, correm as praias da ilha durante todo o ano e têm uma visão mais abrangente da qualidade das águas e dos areais. Uma dessas pessoas não concorda com as afirmações que garantem alguma poluição na praia das Milícias: " Eu venho cá muitas vezes, durante todo o ano, e não me lembro de ver nada disso. Não me ocorre nenhuma situação em que a água estivesse poluída ou algo do género…".

Sucção de esgoto
Estas opiniões divergentes podem levar a crer que poderão ter ocorrido casos pontuais, em algumas alturas do ano, como aquando do arrebentamento do paredão e do tubo de esgoto durante o Inverno passado, devido ao mau tempo.Um outro dos frequentadores de todo o ano vai mais longe e ainda aponta o dedo noutra direcção: "A água não me lembro de a ver suja, mas, como venho cá todo o ano e quase todos os dias, sei que durante o Inverno passado, quase todos os dias de manhã vinha cá uma carrinha, que julgo ser da Câmara Municipal, fazer a sucção através de uma tampa de esgoto que está no parque de estacionamento em frente à torre. Para além de muito barulho, isto ficava todos os dias com um cheiro horrível na praia e nos arredores". Mas então porquê essa prática quase diária? "Como disse, venho quase todos os dias à praia e tenho um colega meu que mora na torre em frente à praia e o que ele me disse é que existe algum problema na escoação dos resíduos nas tubagens dos esgotos naquela zona e por isso vinham cá com aquela carrinha fazer a sucção, talvez para manter a tubagem e as caixas dos esgotos mais desimpedidas. Não sei se será isso, ao certo, mas que vinham cá quase todos os dias, vinham. E o cheiro era nauseabundo, não se podia estar aqui", lamenta. Pelo menos durante este Verão, tal situação parece ainda não ter ocorrido, o que seria, no mínimo, preocupante devido ao grande número de pessoas que diariamente ocorrem à praia das Milícias.
Full Power: poluição
Este fim-de-semana vai realizar-se na praia o III Festival Full Power, um mega evento de música de dança que vai atrair ao espaço milhares de jovens. "O problema é esse, no outro dia de manhã quando cá viermos para relaxar e nadar um pouco vamos encontrar isto tudo poluído, cheio de garrafas e sabe-se lá mais o quê! Não sou contra estes eventos para a juventude, mas que isso vai poluir a zona durante estes dias, isso vai.", alerta um banhista. Mesmo assim, é reconhecida a importância deste tipo de eventos para o engrandecimento da cidade, até mesmo perante os turistas mais jovens, que procuram este tipo de iniciativas.Cabe aos frequentadores destes espaços balneares, como as praias do Pópulo e das Milícias, a conservação do areal, da água e do espaço envolvente, não só durante o Verão, mas durante todo o ano, para que a qualidade seja garantida e a bandeira azul lá no alto venha oferecer aos banhistas as garantias necessárias a um bom dia passado na praia. Isso implica uma consciencialização redobrada perante o nosso ambiente e o nosso bem-estar que deve ser alimentada veemente, não havendo desculpas aceitáveis em pleno século XXI à indiferença e irresponsabilidade.

Pontas de cigarro
E isso, por vezes, começa nos pequenos pormenores que fazem as grandes diferenças, como são exemplos os sacos de plástico, as embalagens dos gelados e outros recipientes que os banhistas deixam na areia apesar dos recipientes para o lixo estarem a alguns metros.Há uma notória falta de civismo por parte de alguns banhistas que, não respeitando o próximo, fazem do espaço da praia que ocupam por algumas horas a sua casa.Opina um banhista da praia do Pópulo: "O que mais me irrita são as pessoas que fumam nas praias e depois enterram as beatas na areia. Não há desculpa para isso, eu sou fumador e não faço isso, vou ao bar, ou então certifico-me que está bem apagado e coloco-o no lixo. Mas enterrar beatas na areia?! Não é agradável para quem anda a passear e as vai encontrando com os pés, ou com as mãos ao colocar a toalha. E será que as pessoas têm ideia de quantos anos leva um cigarro a decompor-se?!". Fomos procurar a resposta que é nada menos do que dois anos…

in "Jornal dos Açores", 21 de Julho de 2006

Pitbull não tem vocação violenta nem de guarda - Raças cruzadas e mal ensinadas é que dão problemas

Texto - Miguel Linhares / Fotos - Nuno Cabral e Bruno Moniz

São notícias atrás de notícias sobre ataques agressivos de cães da raça Pitbull. Quem dá sempre a cara são as vítimas, a culpa é sempre do cão, o dono é sempre irresponsável. Até aqui temos uma meia verdade.
Nos Açores existem ainda poucos criadores de Pitbulls, mas é crescente o número dos que optam por estes cães. Porém, a maior parte, não deve ser de raça pura. E é aqui que reside o problema.
Uma das teorias, sobre o aparecimento desta raça, aponta para o cruzamento de Bulldog com English White Terrier, no século XIX, emInglaterra, numa altura em que as lutas de cães eram um desporto muito popular.
Entretanto, chegou-se à conclusão de que o Bulldog era muito lento, e por isso tentou-se criar uma raça mais rápida, resistente, mais poderosa e eficaz na luta, embora a verdadeira origem do Pitbull ainda levante muitas dúvidas. Esta teoria é de John P. Colby, uma das primeiras pessoas a levar a raça para os EUA e a registá-la.
Dois séculos passados destes primeiros estudos, o facto é que os pitbulls estão em todo o mundo, inclusive nos Açores.
Honório Aguiar, um apaixonado por estes animais, já chegou mesmo a ter um Pitbull. Grande defensor e profundo conhecedor da raça supõe, em declarações ao JA que nos Açores, “só em S. Miguel deverá haver um número considerável de Pitbulls. Como cá chegou? Pelo que sei, foi um senhor que vivia nos EUA e que trouxe um casal para cá e fez criação. Claro que poderá ter chegado de outras formas e por outras pessoas, mas não tenho conhecimento”.
De acordo com Honório Aguiar é muito difícil saber quantos cães existem na Região, “até porque ninguém tem os seus cães registados. As únicas associações de registo de Pitbull são as americanas (American Dog Breeters e United Kennel Club) e em Portugal nem existe sequer uma legislação específica para o Pitbull, mas sim para cães de raças potencialmente perigosas, onde o Pitbull figura”.

Maus cruzamentos geram cães agressivos e perigosos
A raça ganhou fama, nem sempre pelas melhores razões e foi criada, no caso específico de São Miguel, também, nem sempre, pelas pessoas mais adequadas: "muitos dos proprietários não conhecem minimamente a raça, não têm os devidos cuidados com ela e, muitas vezes, criam os cães com a intenção de criarem bichos agressivos. Aqui reside o principal erro. Além disso, por vezes com esse tipo de ensinamento a cães que nem são puros (são traçados com outras raças), aí sim, está a criar-se um cão agressivo e perigoso".

Boxer “é mais agressivo”
Bruno Moniz tem um Pitbull e um Boxer e afirma, desde logo, que "o Boxer é um cão muito mais agressivo que o Pitbull. Não posso deixar o meu boxer à solta perto de pessoas, pois ele ataca, já o Pitbull não!”.
Segundo Bruno Moniz, “o estigma da perigosidade desta raça, tem origem em boatos e informações erradas”, e argumenta, no entanto, que “o único senão dos Pitbull é que não toleram outros cães, a não ser que sejam habituados a isso”. O seu Pitbull, “convive bem com o Boxer e nunca houve problemas”.
Mas do que não se pode fugir é das inúmeras notícias de ataques de Pitbulls quer a adultos, quer a crianças, em todo o mundo. Como se explica, então, a “docilidade” deste animal? Também Bruno Moniz é de opinião de que muitos cães resultarem de “sangue cruzado”. “A aparência é a de um Pitbull, mas na realidade são cães cruzados com outras raças e esses, sim, podem facilmente ser agressivos”.
Honório complementa: " O problema é que muitas pessoas querem fazer as suas próprias criações sem qualquer tipo de critério e cuidado e isso leva a que nasçam cães com temperamentos cada vez mais distantes do temperamento original da raça”. Ainda segundo Honório Aguiar, as notícias que revelam o Pitbull como agressivo, leva a que pessoas, à procura de um cão para defesa ou guarda, adquiram Pitbulls e os eduquem com esse propósito. “Mas depois a maior parte das pessoas é irresponsável, deixa o cão sem trela, ou com fácil acesso à rua, o que torna fácil os casos de ataques”.
Honório Aguiar recorda que “muitos outros cães,até de pequeno porte, atacam pessoas , mas isso não é tão notícia como um ataque de um Pitbull”. Isso percebe-se facilmente pelo facto de um ataque de Pitbull deixar “estragos muito visíveis, o que é mais mediático”.

Há mais perigosos que o Pitbull
Existem muitos estudos sobre a perigosidade das diversas raças de cães, explica Honório Aguiar : “Na Alemanha fez-se um estudo sobre a agressividade nos cães e o Pitbull foi um dos cães mais bem cotados, pela positiva”. Surpreendeu Honório o facto de certas raças “que até são muito publicitadas como amigas das pessoas terem uma maior probabilidade de agressividade do que o Pitbull”. É o caso do Dálmata.
Bruno Moniz ainda sublinha que quando um Pitbull ataca , é um comportamento “fora do padrão da raça, já que alguns até são ensinados a atacar pessoas e nunca o fazem".
Certo é que a raça foi criada com o único propósito de lutar.
Reforçando a ideia de que o genuino Pitbull não é agressivo Honório Aguiar declara mesmo: "Quer se goste ou não, este é um cão de lutas e quando elas eram legais tinham uma série de regras. Não era só atirar dois cães para o centro e vê-los matarem-se. Essas lutas eram regidas por duas pessoas que, quando necessário,separavam os cães. Portanto eles não podiam ser agressivos com pessoas. Foram ensinados a atacar somente outros cães". Bruno Moniz garante que não tem o mínimo problema em deixar o seu cão em contacto com pessoas estranhas, e quando o leva à rua é com segurança, “porque se ele vir outros cães, aí sim, torna-se agressivo e vai querer atacá-los... Já o meu Boxer…”.

Pitbull são dóceis
A docilidade e o bom companheirismo na brincadeira, principalmente com crianças, são as maiores qualidades dos Pitbull . Além disso, são cães com uma personalidade muito forte, determinadíssimos, resistentes e fortes.
"Os Mastin Napolitanos são mais fortes que os Pitbull, mas se por acaso um se confrontasse com um Pitbull, ao fim de meia hora o Mastin já deveria estar cansado e o Pitbull não”, faz, Aguiar, um paralelo.
Outra qualidade é que não estão sempre a atacar outros cães salinta Honório Aguiar: “o Pitbull que eu tinha, se visse cães pequenos, tipo Caniches ou Cockers, não atacava, pois não existia desafio para ele. Já se passasse por um cão maior, como um Rottweiller, aí sim, queria ir à luta”.

Proprietário e cão obrigados a sair de exposição canina
Para além das qualidades referidas, como a força, a personalidade, a resistência, a docilidade, a “beleza” da raça parece contar também muito na opção pelo Pitbull. Mesmo assim, apesar de aos proprietários serem mesmo pedidas fotografias, ainda acontecem situações “humilhantes”, como a que ocorreu com Bruno Moniz que, na exposição canina de Vila Franca, foi obrigado a abandonar o recinto com o seu cão. Moniz relata na primeira pessoa a situação por que passou, poucos dias depois de ter concedido o seu depoimento.
Antes porém destes acontecimentos, e que só serviram para reforçar a “admiração” que têm pelos Pitbull, Honório Aguiar, peremptório, declarava: “é a raça mais bonita! Além disso, é um cão muito bem disposto, activo e meigo. É um excelente atleta. Também não se magoa facilmente, o que é excelente, principalmente para estar com crianças, que são mais propensas a puxar pelos animais e apertá-los inconscientemente”.

Pitbull age à imagem do dono
Aliás, é costume dizer-se que um cão age à imagem do seu dono e nesta raça isso fará muito sentido.
No entanto, a imagem depreciativa do Pitbull deverá continuar, até haver uma legislação específica que leve a que as pessoas se consciencializem e percebam que cães desta raça merecem atenção redobrada e uma educação cuidada.
“Sinceramente, quando vejo notícias dessas sobre Pitbulls irrita-me, porque na maior parte das vezes não se pretende chegar à verdade, mas somente denegrir a raça. Quando eu era pequeno era o Doberman, agora é o Pitbull…encontram sempre maneira de fazer notícia às custas de uma raça”, lamenta Honório Aguiar.

Não são cães de guarda
Bruno Moniz concorda na totalidade com esta afirmação e ainda esclarece: "o Pitbull nem é um bom cão de guarda, não foi criado para esse fim e no seu temperamento não está o atacar pessoas. Há outras raças para esse fim, não esta certamente.".
Honório Aguiar deixa um alerta para as pessoas que querem adquirir um Pitbull. Que começa por “estudar bem a raça” e “tentar perceber se é mesmo esta a raça que pretendem...Este não é um cão para todas as pessoas. Se se decidirem por ele, certifiquem-se que é mesmo um Pitbull, raça pura, se possível, com registo na American Dog Breeters Association”. Além disso, “ as pessoas que têm estes cães, devem dar garantias a quem os procura... Só deste modo os donos vão tirar mais partido do cão e o próprio cão dos donos. Com o Pitbull, como atleta que é, dá para fazer uma série de provas giras, como salto em altura, resistência… é um cão dado à brincadeira e uma excelente companhia que nunca se cansa!”

Situação humilhante na exposição canina de vila franca
“Depois da entrevista ao Jornal dos Açores, decidi prestar uma declaração adicional de modo a sublinhar a minha profunda revolta face às inúmeras injúrias de que é constantemente alvo este inverosímil companheiro e amigo de quatro patas, conferida por um imagem denegrida, hiperbolizada e mesmo manipulada por pessoas e entidades que nada ou pouco conhecem desta raça supra. Os Pitbulls são constantemente excluídos e menosprezados, sendo estes adjectivos perfeitos para descrever o sentimento cruel e indigno que a raça sofre e, por conseguinte, os seus donos e criadores que são subjugados a todo o tipo de notícias alusivas à violência e restrições com o intuito de incriminar a raça. Tal como o Doberman que, no passado, foi também rotulado como "cão assassino", ao que parece este testemunho foi passado ao Pitbull para, desta forma, poderem continuar a saga dos cães "perigosos" e manter o "share" das audiências no topo.
Mas perigosos para quem?! O padrão da raça, para quem os conhece verdadeiramente, está definido como um cão extremamente dócil para as pessoas, especialmente para as crianças, chegando mesmo a ser a raça de eleição para terapias com pessoas portadoras de deficiência, para acções de foro policial (por ser hábil e com grande capacidade atlética) e também pelas centenas de feitos heróicos e históricos que a raça continua a promover, mas que são ocultados, por estes não terem valor noticioso positivo para as vendas.
O que é certo é que o Pitbull é pouco tolerante com outras raças, o que não significa que se for devidamente socializado não possa vir a criar um relacionamento amigável, até mesmo paternal, vivendo em harmonia.
Fui vítima de um situação embaraçosa e humilhante aquando da ida com a minha respeitosa mãe, irmã e camarada canino, a título de curiosidade, a uma exposição canina em Vila Franca. Como sei que o Pitbull não é um cão reconhecido pelas federações fui como espectador e apreciador de outras raças. Passados cerca de 20 minutos, fui convidado a sair do recinto por ter um Pitbull a assistir à exposição... Isto quando o meu cão, juntamente com os Fox Terrier, foi o único que nem abriu a boca para soltar um latido ou apresentar qualquer comportamento de hostilidade , para além de que, à entrada, e para minha grande surpresa, foi dos cães mais elogiados pela sua beleza, tendo-me sido inclusive solicitadas várias fotos.
É importante salientar que este abrupto convite de retirada foi incitado pelo próprio organizador da exposição, que fez questão de interromper o evento para me dar um repreensível "cartão vermelho" e com uma atitude de que eu tinha o maior e mais temível cão do mundo, quando havia exemplares da família dos Pitbulls no recinto.
Poderá ser, ou talvez não, que de uma próxima ocasião este senhor esteja um pouco mais elucidado sobre a raça e não cometa mais actos discriminatórios, porque este é que é o verdadeiro crime. Como ditou o famoso e falecido Gandhi: "O progresso moral de uma nação pode ser julgado pela forma como tratam os seus animais". Aí está o modo como tem sido passada a imagem do Pitbull - um cão extremamente perigoso. Todos nós sabemos que qualquer cão, devidamente estimulado para acções de guarda ou ataque, mesmo o pequeno Chihuahua, pode atacar, porque é incentivado para tal. ... será que esta raça terá de ser sempre marginalizada por pessoas irresponsáveis que no passado utilizavam as suas capacidades de "Game" para o ringue? Não! Paremos de infantilidades e de notícias com destaque a ataques (...) Espero sinceramente que este complemento a esta reportagem e desabafo pessoal sirva para provar o verdadeiro coração do Pitbull e mostrar o lado que nunca foi exibido”.

in "Jornal dos Açores", 20 de Julho de 2006

quinta-feira, julho 20, 2006

Capital açoriana da cultura?!

Texto - Miguel Linhares

Angra do Heroísmo – capital açoriana da cultura. Isto é algo que já não faz muito sentido e não é, de todo, verdade, infelizmente! Já o foi, neste momento e por mais que nos custe é Ponta Delgada, por tudo o que acontece semanalmente nesta cidade. Para além de ter excelentes casas de espectáculo, como o Coliseu e o Teatro Micaelense, possui boas salas de exposições, cinema, teatro e por aqui passam inúmeros artistas de todas as vertentes culturais e de todo o mundo. Foram criadas empresas que são responsáveis por cada uma destas casas, ou espaços, de modo a gerirem convenientemente a actividade artística e a tirar lucro delas. No fundo entregou-se a pessoas capazes, a “exploração” da actividade cultural na ilha, com as câmaras municipais a encabeçarem este movimento. É isto que falta, por exemplo, ao Teatro Angrense. Fico triste ao ver o abandono que aquele teatro foi relegado e pela fraca promoção de que é alvo. No Centro Cultural, vá lá, isto já não é tão notório, mas sinto que falta sangue na guelra de quem conduz os destinos daquela casa. Digo isto enquanto angrense, minimamente informado e preocupado com a inactividade cultural da nossa cidade. Dinheiro gera dinheiro, portanto se o município separar inicialmente verbas que sirvam para impulsionar as actividades – bem escolhidas, atenção – o retorno será garantido. É assim que funciona. E depois há mais uma coisa, não pode se entregar, como já se viu, os destinos destes lugares a eruditos. Não funciona! Há que exigir dinâmica, juventude, polivalência e conhecimento abrangente de causa. Senão colocam-se artistas e actividades em cartaz que só interessam a meia dúzia de Srs. Doutores e mais uns quantos curiosos. E isso não dá dinheiro de certeza. Há que aliar o factor comercial com o factor qualidade. E existem inúmeras possibilidades nessa área. É preciso é conhecê-las, antevê-las, fazê-las gerarem lucros e ao mesmo tempo acordar a cidade para a cultura e para o entretenimento. E ai sim! Poderemos novamente nos orgulhar de sermos a capital açoriana da cultura. Até lá, vamos ter que continuar atrás de S. Miguel em mais este assunto…

in jornal "A União" de 12 de Julho de 2006 e www.musicofilia.blogspot.com

quarta-feira, julho 19, 2006

Um pequeno Delírio

Pela morte

Perguntarei á morte o que é estar sem ti
Numa lânguide madrugada de abril,
Num estado de semi- loucura febril
Pedirei á morte para falar de si.

Sou eu, toda esta escuridão
A qual um dia vou-te apresentar,
Nestes labirintos para sempre vou ficar
Sem céu á vista e espinhos no chão.

Com mil bruxas espero dançar
Em mil e um dias da minha morte,
Contra as magias direi que tenho a sorte
De a mais bonita de todas me amar.

Miguel Linhares - Angra do Heroísmo, 12 de Março de 2002

Não. Não gosto daquilo.

Texto - Miguel Linhares

Música: parte integrante da cultura, se bem que muitas vezes ostracizada, ignorada por uma grande parte de valores da sociedade, ora puritanos, ora meros analfabetos culturais, senhores “feudais” que regulamentam o mundo à sua volta de modo a alimentar todas as ego (excentricidades) que lhes enfeitam o topete. Não mais que um escasso ataque de raiva consigo sentir quando penso que sou encarado muitas vezes como um casual portador de ignomínia perante alguns destes senhores, por ser contemplado pela irreverência, audácia e diferença, por ser um apreciador de música, de quase todo o tipo de música, embora com uma paixão inexplicável e incontrolável pelo Rock. De nada serviram – desculpa Pai por não me ter tornado num Shubert – as aulas de piano e de formação musical no Conservatório Regional de Angra do Heroísmo. Foram cinco anos meio perdidos, embora em tenra idade tenham me dado uma visão sobre este mundo tão vasto… aprendi, em parte, a absorver variadas sonoridades sempre com um pouco de mais argúcia do que se o fizesse sozinho em casa, entre muitas cassetes de fita castanha e um velho rádio comprado na Base Americana, em “mil novecentos e troca o passo”, pelo meu Pai, e oferecido à minha mãe. Ora, até hoje estou a aprender a ouvir música e estou constantemente a aprender, porque o Rock tem muito que se lhe diga e não se baseia em batuco e coçar guitarras! Se é culturalmente aceite ir ao teatro apreciar uma qualquer adaptação de um clássico, ir ao cinema ver filmes a preto e branco e falados em francês, passar por uma galeria de arte e entrar com um ar de intelectual, coçando o queixo e ficar a olhar sete minutos e meio para uma panóplia de cores em tela assinado pelo Marc Chagall, também presumo que deveria ser aceite ir a um concerto de Rock e ficar duas horas a olhar para quatro ou cinco indivíduos de roupa preta! Não…?! Então eles, na sua maioria, ganham mais do que qualquer deputado pode sonhar, mesmo acumulando reformas e ordenados de deputado e com a vantagem de não terem de mentir!!! Só tem de atirar a uma plateia o que lhes vai na alma e dar o som que os tais senhores não percebem porque não vem em nenhum manual ou enciclopédia. Mais, não é necessário andar a posar uma gravata sebenta, nem uns sapatos que além de ficar mal, causam dor nos pés. Ironicamente estou a entrar no caminho que eles utilizam para se desviarem de nós. Estou a falaciar sobre algo que critico. Pois, também eu cometo erros… mas admito que a única maneira para haver solidariedade, amizade e compreensão é vestirmos a pele dos outros e tentar compreende-la, nada mais simples! Assim, poderemos não apreciar o que os outros fazem, mas entendemos e até nos poderemos rir sobre o facto de um dia termos sido umas bestas-quadradas que na realidade só viam o seu mundo, quando o dos outros sempre foi parte integrante do nosso. Assim é a cultura…

in revista "Art&Manhas", Nº 0, inverno de 2005

sexta-feira, julho 07, 2006

Simpática ignorância.

Texto - Miguel Linhares

Tudo acontece de cada vez que se sai á rua. No meio da escuridão da calçada jazem muitas conversas e pensamentos estridentes, produto cuspido por mentes obtusas, produto de almas inteligentes e predominantes. É assim, o mais forte e mais inteligente consegue dar-se ao luxo de despropriar-se de tudo aquilo que, ao mais comum animal, seria um momento de profunda introspecção, um momento de superioridade do qual ele nem tem noção que existe, ou que possa ter. Triste, não é?! Nem sempre se pode aproveitar tudo aquilo que criamos, por mais importante que isso fosse para o ser ao lado, ignora-se decididamente. Se calhar á imagem do mais fraco, também não se tem noção da sua importância e dai o fim triste nos cantos da cidade, vageando ao sabor do vento que curva infantilmente nas travessas. E nunca será recolhido por ninguém. É ignorado por não ser compreendido! Triste também, não é?Nunca acabará num papel, encadernado decentemente, mas cruzar-se-á todos os dias com os "desencadernados" que também são vitimas das brincadeiras do vento. Ah, esse vento que não se cansa e provoca a erosão nas tais almas inteligentes e predominantes. Por lá passa e lá grita os seus segredos, num ápice! Ninguém o apanha! Mas também ninguém o compreende...E continuam a ser cuspidas coisas que não mereciam ser espezinhadas por aqueles que as criaram e pelos outros que não compreendem,... e os que as compreendem acabarão também sentados no brilho polido da calçada, levando com as diabruras do vento e com a simpática ignorância dos mais fortes e mais inteligentes. Que vida imbecil esta...!

in www.musicofilia.blogspot.com de 7 de Janeiro de 2005

Intimista sim! (Mafalda Veiga)

Texto - Miguel Linhares / Foto - www.mafaldaveiga.com

Foi no passado sábado que tivemos o prazer de rever ao vivo Mafalda Veiga, com a uma graciosidade musical que desperta até os mais indiferentes à anacruse! Independentemente de se ser apreciador deste género, ou não, a música desta artista acarreta uma mística adjacente a um unificado de sentidos, frágeis, lógicos, conserva a ternura de uma voz inimitável, pautada e relaxante. De frisar a excelente direcção artística levada a cabo por António Pinto, assente numa secção rítmica muito interessante, pensada mas subjectiva e um complemento magnificente no piano. Toda a música de Mafalda Veiga é baseada em vivências, desejos, ternuras e alegrias, sem nunca roçar muito o pessimismo, mas sim pintando em tons alegres o que lhe rodeia. E isso aplacou o público! A beleza perfeitamente audível foi complementada a um rol de imagens estruturadas do início ao fim do espectáculo, criando um concerto ainda mais intimista. De parabéns fica a artista que apesar de não ter enchido o Centro Cultural de Angra do Heroísmo, fê-lo vibrar, aplaudir e cantar temas que todos as tomaram como suas. A beleza de um artista musical também reside aí.

in jornal "A União" de 19 Janeiro de 2005 e em www.mafaldaveiga.com

quinta-feira, julho 06, 2006

Quanto custa a cultura em Portugal?

Texto - Miguel Linhares

Se olharmos bem para o mapa-mundo, até nem somos dos países mais pobres culturalmente e intelectualmente. Comparado com os países de terceiro mundo, somos um país muito culto e educado, comparado com os países desenvolvidos – e europeus essencialmente – já deixamos algo a desejar. A nossa história é vasta, o nosso povo apesar de abusivo em relação aos demais que ia encontrando nas terras descobertas, sempre foi um povo inteligente, culto, dado á aventura, descoberta, investigação…nada faria prever que Portugal se tornasse no que hoje invariavelmente é! Um país de pessoas incultas e analfabetas funcionais. Apesar de não ser geral, este mal assume dimensões gigantescas, tendo em conta que o país terá pouco mais de 10 milhões de habitantes. Pelas contas da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Portugal apresenta 48% de analfabetos funcionais. Só para se ter uma ideia, os Estados Unidos apresentam um valor a rondar os 21%, a Alemanha 14% e, pasme-se, a Suécia 7%!
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Apesar da taxa de analfabetismo absoluto ser já muito reduzida no nosso país, apesar das pessoas serem relativamente escolarizadas, saberem ler, escrever e realizarem cálculos aritméticos básicos, não conseguem compreender a palavra – e muito menos o seu valor etimológico –, lêem mas não entendem o significado da maior parte das coisas, dos conceitos e termos fundamentais. Tudo o que lêem é-lhes familiar, por estar escrito na língua portuguesa, mas não absorvem os conteúdos. E este é um dos maiores males, a nível cultural, na nossa sociedade actual e um dos factores mais importantes para o insucesso escolar a longo prazo. Não obstante de realmente termos evoluído muito desde a revolução dos cravos, começa a ser vergonhoso a falta de cultura e educação dos jovens portugueses. Digo jovens, porque os mais velhos não podem ser culpabilizados por sistemas de ensino decrépitos e desajustados, nos quais foram inseridos – ou não, estudar não era uma prioridade, mas sim trabalhar – nem pela educação que lhes foi incutida em casa e pela sociedade. Como disse uma vez um cantador popular terceirense, se não me falha a memória, o João Ângelo, “…tive como lápis o alvião e como papel a terra…”.
Um povo avalia-se pela sua capacidade intelectual e cultural e será isso que o define no mundo e o poderá distinguir dos demais. Portugal, nos últimos anos, tem provado ser um país de contrastes e de muitas incompreensíveis regressões, obtendo valores recorde em quase tudo o que é indesejável para uma nação. A iliteracia também lá está. E o que é o mais engraçado nisto tudo? É que o português não se preocupa com isso e não sente vergonha. O português é facilmente influenciado por todo o lixo que se lhe ponha à frente: reality shows, ok; jornais e revistas sensacionalistas e/ou cor-de-rosa, ok; jornais desportivos como a única leitura diária, OK; telenovelas cheias de enredos e sem “sumo”, ok; música de “plástico” e com muitos”coraçõezinhos”, ok; talões de desconto do hiper, ok; “xuning”, OK; paródia, ok… Apoiar campanhas politicas, sem fazer a mais pálida ideia do manifesto eleitoral do candidato e votar nele porque é o mais bonito ou o mais conhecido, OK! E assim se faz um país. Tudo isto tem sentido, a par do ordenado ao fim do mês, para a maioria da baixa/média classe portuguesa, o que corresponde a muito mais de metade da nossa população. É nesta entropia que vivemos. Escusado será dizer a este povo para não seguir as modas, mas para descobrir as suas emoções, para se cultivar, escrever, ler, investigar, compreender, descobrir, renegar o atrofio intelectual.
E para ajudar esta luta inglória, foi aprovado um projecto de lei do Governo da Republica, sob o qual o Estado deixará de subsidiar o transporte aéreo dos livros e revistas para os Açores, estando fora deste opróbrio os jornais diários, semanários generalistas, revistas informativas e manuais escolares. Tudo o resto deixará de ser subsidiado e consequentemente irá custar ainda mais ao leitor Insular. Cai deste modo por terra a introdução de regime de equiparação de preços levado a cabo pelo ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, há poucos anos, e que veio fazer com que jornais, revistas e livros custassem o mesmo na região, que no continente, para não falar do facto que deste modo os produtos também chegavam em tempo – mais ou menos – útil à nossa região, o que agora vai novamente deixar de acontecer. Portugal no seu melhor!
E enquanto revistas como esta não tiverem em capa o Cristiano Ronaldo, ou a Catarina Furtado – semi-nua se possível – continuarão a fazer parte de um universo desconhecido e folheadas pelos muito poucos que não se importam que o conteúdo tenha muitas letras e poucas fotografias...

in revista "Art&Manhas", Nº 1, verão 2006